terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

S.

É quando o mundo desaba
e na queda esmaga
O que era amor.

Quando sozinhos estamos
e então choramos
apertados de dor

Quando de longe o vejo
e então percebo
ainda te amar

É quando sem mais palavras
me sinto apertada
sem nada mudar.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Aquela do Cais

Embriagou-se de conhaque, sua mão, enfurecida, ainda estava em seu rosto tentando deter as lágrimas libertas de sua alma. O lago movimentava-se a cada salgada gota que se afogava naquela doce imensidão esquecida.
O silêncio, quebrado apenas pelo balançar, envolvia-a como se a acalentasse. Era ali o seu refúgio, as madeiras velhas e úmidas rangiam a cada carinho que recebiam. Seus sapatos abandonados no início deste corredor flutuante juntos com as amarras que prendem sua alma na rotineira e árdua vida.
Mas o vento traiçoeiro a proibira de esquecer-se daqueles carinhos que já não mais encontraria num futuro próximo. Deitou-se no manto verde que cobria lentamente a velha madeira, voltou a desacreditar em tudo o que a fez se reencontrar com a dor.
Sentou-se.
Pegou uma folha de papel, antes amassadas pela raiva de seus dedos que agora a acariciavam. Cuidadosamente a dobrou, fez-se um barco. O posicionou na divisa entre a madeira e o lago.
Deitou-se.
Encheu os pulmões e soprou, o singelo barquinho cai de ponta cabeça e é engolido pelo lago. El observa aquele vulto branco sumir nas águas e com este golpe de sorte sussurrou para si:
"De agora em diante desacredito no amor que afundou nas águas deste cais."

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um último pra você

Um tal amor,
Uma senhora culpa,
Um mundo de arrependimentos,
de tentativas,
de buscar, entre espasmos um espelho para que eu pudesse me ver.
Forcei um sorriso,
Disse que tudo estava bem,
Disse que deveria ser feliz,
Que eu o queria feliz.
Feliz..
Feliz..
Feliz..
Fugi..
Para bem longe.
E nesse meu longe
não me privei do humano egoísmo.
Deixei que ele entrasse, sentasse,
bebesse um café.
Então gritou tudo aquilo que queria,
Levantou, andou em círculos,
jogou a xícara de café no chão.
Um grande desrespeito,
que eu gostei.
Vi que esse egoísmo estava aqui, o tempo todo,
Em cada espasmo quando forçava um sorriso
para dizer que por mim tudo bem.

Não.
Por mim nada está bem.
Tudo poderia estar melhor.
E você...
Você não deveria. Apenas não deveria.

Este é seu último.
Este tem de ser o seu último.

5 dias, 51 horas, 5 minutos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

G.

Pertenceu-me,
no intervalo de um suspiro de paixão,
Pertenceu-me,
e fez nascer o que defendo ser amor,
Me encontrei em suas ternas palavras que enviavam a súplica maior,
Sejas minha!
Sejas minha!
E senti-me como uma pena
Que se liberta de teu pássaro,
E deve flutuar, sem rumo
Sem dono.
Mesmo por vezes, muitas vezes, se lembrar do pássaro
como se ainda fosse
Teu pássaro.
E mesmo flutuando ainda possuo tuas ternas palavras,
E mesmo flutuando penso ainda ser tua,
assim como eras meu.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Aquela das Galochas Vermelhas


Como uma massa cinzenta aquela cidade se acomodava na planície que foi ocupando vagarosamente, como uma praga sem freio.
Pelos borrões cinzas nascidos da pressa está aquela das galochas vermelhas. Guarda-chuva aberto, capa fechada, olhar no céu.
A água escorre pelos prédios, os fazem brilhar. Uma correnteza se forma no meio-fio, o lixo se transforma em peixe e o bueiro em cachoeira. As galochas se encontram pelo bico, suas pernas se entortam em resposta ao frio vento que tentava lhe fazer correr como os borrões da calçada.
Ela mantinha seu olhar fixo no céu, vendo cada gota sair da grande nuvem com tom igualmente cinza, combinando com toda aquela cidade.
O Guarda-chuva se abaixa, ela fecha os olhos, como se a cegueira aumentasse o prazer das sensações à sua volta. E aumentou.
A chuva lhe doou a sensação do humano. Ela molhava sua face, o vento vinha lhe secar, e de olhos fechados descobriu que a melhor coisa a se fazer era deixar se molhar, e esperar o vento lhe renovar.