domingo, 26 de fevereiro de 2012

Aquela do Cais

Embriagou-se de conhaque, sua mão, enfurecida, ainda estava em seu rosto tentando deter as lágrimas libertas de sua alma. O lago movimentava-se a cada salgada gota que se afogava naquela doce imensidão esquecida.
O silêncio, quebrado apenas pelo balançar, envolvia-a como se a acalentasse. Era ali o seu refúgio, as madeiras velhas e úmidas rangiam a cada carinho que recebiam. Seus sapatos abandonados no início deste corredor flutuante juntos com as amarras que prendem sua alma na rotineira e árdua vida.
Mas o vento traiçoeiro a proibira de esquecer-se daqueles carinhos que já não mais encontraria num futuro próximo. Deitou-se no manto verde que cobria lentamente a velha madeira, voltou a desacreditar em tudo o que a fez se reencontrar com a dor.
Sentou-se.
Pegou uma folha de papel, antes amassadas pela raiva de seus dedos que agora a acariciavam. Cuidadosamente a dobrou, fez-se um barco. O posicionou na divisa entre a madeira e o lago.
Deitou-se.
Encheu os pulmões e soprou, o singelo barquinho cai de ponta cabeça e é engolido pelo lago. El observa aquele vulto branco sumir nas águas e com este golpe de sorte sussurrou para si:
"De agora em diante desacredito no amor que afundou nas águas deste cais."

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