sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Aquela das Galochas Vermelhas


Como uma massa cinzenta aquela cidade se acomodava na planície que foi ocupando vagarosamente, como uma praga sem freio.
Pelos borrões cinzas nascidos da pressa está aquela das galochas vermelhas. Guarda-chuva aberto, capa fechada, olhar no céu.
A água escorre pelos prédios, os fazem brilhar. Uma correnteza se forma no meio-fio, o lixo se transforma em peixe e o bueiro em cachoeira. As galochas se encontram pelo bico, suas pernas se entortam em resposta ao frio vento que tentava lhe fazer correr como os borrões da calçada.
Ela mantinha seu olhar fixo no céu, vendo cada gota sair da grande nuvem com tom igualmente cinza, combinando com toda aquela cidade.
O Guarda-chuva se abaixa, ela fecha os olhos, como se a cegueira aumentasse o prazer das sensações à sua volta. E aumentou.
A chuva lhe doou a sensação do humano. Ela molhava sua face, o vento vinha lhe secar, e de olhos fechados descobriu que a melhor coisa a se fazer era deixar se molhar, e esperar o vento lhe renovar.