segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O velho Boticário

Morrem as palavras, aliás, desmaiam.
O A foi expulso, O M virou D. Apenas o O e o R resistiram.
O boticário é chamado, receita repouso,
uma sangria a cada dois dias.
Purificação do sangue.
"Estes sentimentos pestilentos, ainda me deixarão rico!"
Diz o velho gagá, boticário, solitário.
"É a melhor forma de viver, evita dores no peito"
Ele auscuta o peito das palavras, com um suspiro surge na porta o L, o A, o G,o R, o I o M, outro A e um S.
"Deixe que entre, faz bem a esta coitada um pouco de água salgada. Depois de algumas doses a realidade parece menos rígida. Sei disso muito bem, a guerra me ensinou a viver sem precisar delas de novo."
A guerra, a solidão. Parecem cura nesta ocasião!
Marcam a pele, que na guerra é ferida e na solidão se esfria.
A Alma sai ilesa? - Perguntou a adoentada
"A Alma nunca sai ilesa, mas as feridas do meu passado são mais fáceis de curar do que estas do seu presente"
Ela fica muda. Vou morrer?
"Ainda não, infelizmente ninguém morre de uma tolice dessas, apenas se esquecem de viver um tempo. Logo a cura chega junto com o esquecimento, e tudo isso vira um ciclo. Dura pouco tempo, até o coração secar. Logo apenas suas função prática sobreviverá, a de bater e fazer correr sangue nestas suas finas veias."
Ela segura na mão do velho boticário, que a olha sobre os grossos óculos de fivelas douradas passadas no pescoço.
Deixe que eu morra. Assim tudo isso vira crime, aquele monstro que me trouxe isso vai preso e nunca mais alguém viverá assim. Faça isso pelo senhor, que eu bem vejo nestes cansados olhos que não foi a guerra que lhe deixou sozinho. - Insistia, desesperada.
"É uma pena que não exista monstro. Isso é um vírus, um tanto quanto estranho eu diria. Encanta a todos de primeira, mas só em alguns causa bem, fortalece, alegra a vida eternamente.Em outros como nós dois corrói o coração, faz morrer crenças, nos deixa assim. Sem sossego. Mas você se acostuma minha filha. O Tempo cura tudo, mesmo se nesse tempo você passar por guerras, tudo será curado. Só não tente remover cicatrizes, elas serão eternas. Melhor assim, que quando o esquecimento chegar você não cometa a mesma tolice, e feche os olhos. Fica mais fácil, você verá."
Ele ajeita o cobertor da pobre, e segue de volta sua rotina.
"Abrir os olhos do mundo, eu digo que é esta minha missão!" -Sai nos seus passos envelhecidos.
E com sua risada rouca abafa o choro que chegou em sua garganta.

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